Espiritualidade de prateleira.
cartas de um aprendiz #59 - há uma diferença entre conhecer o mapa e pisar no território, e ela aparece na hora que dói.
Quinta-feira, 30 de abril de 2026. 14:12
Ontem estava andando pra lá e pra cá em minha sacada.
É assim que, geralmente, os processos envolvendo escrita se iniciam: um maluco palestrando em voz alta para si mesmo, e para as paredes, permitindo que as ideias saiam pelo corpo antes de virarem tinta em um papel.
Estava às voltas com algo que me acompanha faz um tempo, a percepção de que nós que já atravessamos territórios profundos aprendemos, meio que na marra, a viver em dois espaços ao mesmo tempo. Um eu que cumpre os rituais do cotidiano, fala a língua da materialidade, paga o boleto e olha com desconfiança pra qualquer coisa que não caiba num dado concreto. E outro que percebe frequências que o primeiro ignora, e que, por não saber de onde vêm, logo arquiva como devaneio, afinal de contas há um boleto pra pagar e ele é mais real que qualquer outra coisa. Estava tentando encontrar as palavras pra isso.
Sempre há a sensação de que alguém mais está ouvindo. Bom, dessa vez não era apenas uma sensação. Havia mesmo.
Quando percebi, já era tarde o suficiente. Ali estava ela, minha vizinha de prédio, com sua janelinha da área de serviço diretamente voltada para minha sacada. Os olhos dela completamente fixados em mim, com aquela expressão que mistura curiosidade com uma dúvida, mesmo que sutil, sobre o estado mental do outro. Não posso julgá-la.
Assim que a notei, me contraí completamente. Apenas notei meu corpo se encolhendo; meus braços mudando de posição e minha voz desaparecendo por inteiro. Testemunhei meu corpo carregando uma vergonha antes mesmo que pudesse assumir qualquer forma de controle.
A vergonha é, em seu nível mais profundo, a negação de Si. Ela se volta contra a própria existência de quem a sente. Aperta no peito de um jeito que a raiva e a tristeza não apertam, porque essas têm direção e um objeto ao redor do qual girar. A vergonha apaga e retira o direito de ocupar espaço, de ser visto, de simplesmente estar. Das frequências que atravessamos, ela é uma das que descem mais fundo, e o faz porque usa você como instrumento contra você mesmo.
Parei ali o que estava fazendo.
Não posso negar que algo positivo que hoje extraio disso é que, após toda a reflexão metafísica gerada por uma situação que não ocorreu por acaso—pois o acaso não existe—, encontrei nela o tema para a carta que escrevo neste agora. Até antes disso não havia nada em mente para trazer hoje a vocês, Buscadores.
Quando a lucidez serve ao mesmo ego que você diz ter dissolvido
Tenho assumido cada vez mais, em todos os meus corpos, o prisma de visão de que a realidade que habitamos é um sonho, no mesmo sentido que diversas tradições antigas orientais contemplam.
A experiência dentro do sonho é real enquanto acontece, mas a substância primordial que a gera é a pura consciência do Todo, e não a perspectiva de matéria independente que nasce ao contemplarmos o que chamamos de realidade pelo prisma do ego.
Leia, releia e exercite a compreensão deste parágrafo no espírito e no corpo; não na mente.
O ponto é que, além de assumir esse prisma ser algo eficiente dentro de um caráter organizacional da experiência, ele também pode ser uma armadura completamente ilusória.
Veja. Assumir uma consciência sem colapsá-la é apenas uma intelectualidade preenchida de elegância, mas sem qualquer caráter operativo real. Você pode reconhecer um grau de compreensão a respeito da realidade dentro de um caráter ilusório; pode reconhecer que o Observador cria o observado; sabe que a experiência de realidade que nasce através do filtro da vergonha é uma construção fundamentada em uma narrativa, um personagem dentro de outro personagem. Você pode compreender tudo isso com o intelecto e mesmo assim continuar se recolhendo quando uma vizinha olha você pela janela.
O saber não é o mesmo que habitar.
Essa é a pedra.
O que o intelecto não alcança
Quando essa contração em meu peito surgiu, tentei usar todo esse prisma de observação da realidade como sendo um sonho/ilusão com o objetivo oculto de negar o que aquela experiência estava me convidando a viver. Tentei usar a cosmologia oriental como forma de fuga. Estava tentando aplicar apenas o caráter “ilusão” como forma de invalidar o que estava sentindo.
“a vergonha não passa de um sonho”
“a mulher não passa de um outro eu”
Mas a vergonha continuava ali, me contraindo.
Estava apenas criando mais uma camada de proteção contra mim mesmo; contra uma projeção feita ali que, no momento exato em que estava acontecendo, não percebi.
O que a perspectiva metafísica da realidade toca, e que atravessa diversas cosmologias, é a de que a realidade é uma ilusão, mas a experiência dentro da ilusão é real.
Quem usa a espiritualidade intelectual para negar, fugir ou escapar de um sentimento amargo está apenas criando mais um buraco, talvez muito mais difícil de sair. Quando nos ocorrem situações de forte teor emocional e nos pegamos tentando escapar, certamente devemos voltar todas as casas.
Existe uma cena que ficou comigo de uma meditação recente. Um homem dentro de uma caverna, perguntado sobre o sonho, responde: quando entender que tudo é um sonho, estará livre. (está em minha carta anterior).
Observe:
Ele não disse: quando ignorar que está sonhando, estará livre.
Ele não disse: quando usar a consciência do sonho para se proteger da experiência dentro dele, estará livre.
O que nenhum discurso atravessa
Reconhecer o aspecto ilusório da realidade não diz respeito a se afastar dela, mas a atravessá-la com um novo nível de clareza sobre o que está sendo atravessado.
O que diferencia essa distinção é a qualidade da presença com que contemplamos, em todos os corpos, a natureza de uma mensagem profunda como essa. Uma presença que valida a experiência que está sendo vivenciada, que traz a disposição para sentir e atravessar o que se encontra no momento sem usar o que você diz que sabe como tentativa de separar os “eus”. Caso o faça, está apenas criando mais distância entre você e o que está acontecendo.
O paradoxo habita neste espaço específico, e ele se apresenta da seguinte forma:
quanto mais você reconhece o caráter ilusório da realidade, mais sofisticados ficam os mecanismos de defesa que a própria ilusão usa para proteger a existência enquanto narrativa, para se proteger de ser habitada de verdade.
Divagar sobre isso me fez reconhecer no corpo que sim, o que estava acontecendo ali naquele momento com a mulher me observando era uma projeção. Mas também uma ponte para o reconhecimento de que estava sendo observado, mas não por ela; pelo próprio Observador.
Quando estamos naquela sensação de estarmos sendo julgados, o que podemos extrair de interpretação é que o Todo nos observa quando estamos sendo nós mesmos, não para julgar, mas para apreciar nossa bem-aventurança.
O eu identificado ao ego não compreende isso. Ele filtra pelo seu paradigma reducionista de realidade material que há alguém nos julgando, nos menosprezando, sendo que ele mesmo faz isso apenas para perpetuar sua própria ilusão de existir. É muito importante que você leia esse parágrafo mais de uma vez.
Mas isso não foi suficiente. O que realmente aliviou essa emoção foi continuar fazendo o que estava fazendo antes de todo esse emaranhamento do ego.
Se eu tivesse apenas contemplado tudo o que escrevi na mente e não continuado a fazer o que ali, naquele momento, me entusiasmava, estaria apenas utilizando esses conceitos metafísicos como proteção contra o que é difícil de sentir e assumir.
Quantas pessoas você conhece que são assim. Que tratam a espiritualidade, a metafísica, a alquimia, o hermetismo, a própria religião de forma plena no campo intelectual, mas negam o que se apresenta à sua frente.
Na própria alquimia há o reconhecimento acerca da necessidade visceral de coagular a experiência espiritual. Manter os dois pés no chão. Sem isso, a cada novo problema que surgir haverá uma ânsia de deixar um pé no plano mental; de anestesiar-se da realidade sustentando um discurso bonito que apenas fica no campo do discurso, mesmo.
A pergunta que fica, depois que tudo isso se assenta, é menos sobre o que sabemos e mais sobre o que estamos dispostos a sentir sem usar o saber como saída.
O que em você está usando a consciência para não colapsar?
Com presença,
Mindra.
Se você sente que há mais chão a percorrer, a comunidade Buscadores de Si existe para isso. O tema de abril se encerrou. Agora no início de maio aprofundaremos ainda mais, com auxílio de meditações guiadas e documentos com exercícios práticos de ancoragem. O link está abaixo.



